“E aí, como foi o treinamento?”
“Foi ótimo.”
A conversa costuma terminar aí. O gestor fica satisfeito com a resposta, o RH registra a nota da turma e a semana segue.
Parece resultado. É satisfação. “Foi ótimo” diz como foi a experiência na sala. Não diz se algo mudou no trabalho, e ninguém perguntou.
O RH contrata, organiza e acompanha a turma. Mas a aplicação do aprendizado após o treinamento, quando o participante volta para a própria agenda, depende de outra pessoa. Muitas vezes de alguém que não estava na sala e não foi preparado para esse papel.
A turma muda. A equipe continua a mesma.
O participante volta com uma ideia nova e encontra a rotina de sempre. As mesmas demandas, os mesmos prazos e uma equipe que não passou pela capacitação e não sabe o que esperar dele.
Aplicar algo pela primeira vez custa. É mais lento do que o exercício da turma, nem sempre dá certo e chama a atenção de quem está em volta. Sem espaço para isso, o caminho mais curto é voltar ao jeito antigo.
Imagine um coordenador que fez um treinamento sobre delegação. Na semana seguinte, ele entrega uma tarefa nova a alguém da equipe, explica o resultado esperado e combina um ponto de acompanhamento. A entrega chega com um erro. O gestor dele comenta: “Melhor você mesmo fazer, é mais rápido.”
O coordenador não vai discutir. Vai concluir que o que aprendeu serve para a sala, não para o trabalho.
O que o gestor controla e o RH não
A agenda é do gestor. É ele quem decide se o participante terá tempo para tentar algo novo ou se a urgência do dia vai ocupar tudo.
A tolerância ao primeiro erro também. Quem aplica pela primeira vez erra mais do que quem pratica há meses, e a reação do gestor nesse momento ensina mais do que o conteúdo da turma.
E o feedback. Sem uma conversa sobre o que foi tentado, o participante não sabe se está no caminho certo. Com ela, a tentativa vira prática.
Nada disso é questão de boa vontade. Gestor com a agenda tomada também não tem como abrir espaço, e é por isso que a conversa com o RH importa antes de a turma começar, não depois.
Esse papel não nasce pronto. Acompanhar o desenvolvimento de quem se lidera também se aprende, e faz parte do que se trabalha no Programa de Desenvolvimento de Líderes.
Uma situação real e uma data para olhar o resultado
“Aplique o que aprendeu” é uma instrução que ninguém consegue cumprir. É ampla demais para virar ação na terça-feira.
Funciona melhor combinar uma situação concreta do trabalho em que a nova prática será usada. Uma conversa de feedback que estava adiada, uma reunião que precisa de outra condução, um problema que será analisado com o método visto na turma. Para o coordenador do exemplo, poderia ser a próxima distribuição de tarefas da equipe, com um ponto de acompanhamento marcado para a sexta-feira.
Junto com isso, uma data para o gestor e o participante conversarem sobre como foi. A conversa não precisa ser longa. Precisa existir, porque é ela que mostra para os dois lados que o assunto continua importando.
O desenho completo do que o gestor faz antes, durante e depois da capacitação está em Como fazer o treinamento de equipe valer a pena?. Aqui o foco são os primeiros dias depois da turma.
A equipe também precisa saber
Quem volta de um treinamento e muda a forma de trabalhar costuma estranhar sozinho. Os colegas não sabem o que mudou nem por quê, e a mudança pode ser lida como implicância, exigência nova ou desvio do combinado.
O gestor ajuda quando torna a mudança visível. Dizer à equipe que o colega vai experimentar uma nova forma de conduzir as reuniões, ou de passar tarefas, e pedir que o time dê retorno. Isso transforma uma tentativa individual em algo que o grupo também observa.
Quando mais de uma pessoa da mesma área participa da turma, vale combinar que apliquem juntas. Elas têm com quem conversar sobre o que funcionou, e a prática deixa de depender da insistência de uma pessoa só.
O que o RH pode fazer antes de o participante voltar
O RH não controla a rotina do gestor, mas pode preparar a conversa antes. Um contato curto com o gestor de cada participante, antes da turma, para combinar qual é o tema, que mudança se espera e de que espaço o participante vai precisar quando voltar.
Depois da turma, uma retomada com o mesmo gestor. Não para cobrar, e sim para perguntar o que ele observou. Essa informação vale mais do que qualquer lista de presença.
O RH também decide o que medir. A maior parte das avaliações para na reação, a percepção dos participantes sobre a turma. É um dado útil, mas não diz se a prática chegou ao trabalho. No modelo de Kirkpatrick, que organiza a avaliação em quatro níveis (reação, aprendizado, comportamento e resultados), a aplicação aparece no terceiro. Para chegar até lá, é preciso olhar o comportamento no dia a dia, e o gestor direto é a principal fonte.
Há mais sobre como medir esses resultados em Como Medir e Otimizar os Resultados em Treinamento.
Quando o obstáculo não está no gestor
Nem toda aplicação que não acontece é falta de acompanhamento. Às vezes o participante aprendeu e quer usar, mas o processo, a ferramenta ou a regra da área não permitem. A nova forma de conduzir uma reunião esbarra em um formato definido pela diretoria. O novo jeito de registrar um atendimento não cabe no sistema.
Nesses casos, cobrar do participante é injusto e treinar de novo não resolve. A conversa de retomada serve também para separar as duas situações. O que ele tentou e não conseguiu? O obstáculo está nele, no gestor ou fora da equipe?
Saber a diferença evita um desgaste conhecido. A empresa conclui que “o treinamento não funcionou”, quando o que faltou foi remover um obstáculo que ninguém tinha visto.
O que não fazer
Tratar o certificado como prova de aplicação. Ele registra a presença, não a prática.
Cobrar resultado de quem não teve espaço para tentar. O participante lê isso como desconfiança, não como incentivo.
E deixar a aplicação inteira nas mãos de quem acabou de aprender. O participante é quem tem menos poder para mudar a agenda, a reação do gestor ou a expectativa da equipe.
O que se pergunta depois da turma
Existe um momento, entre a última aula e a volta à rotina, em que a aplicação do aprendizado após o treinamento ganha ou perde força. Dura poucos dias e quase nunca é planejado.
Na última turma que sua empresa treinou, quem acompanhou o que o participante fez na semana seguinte? E o que o gestor dele ouviu do RH antes de ele voltar?
A CR BASSO capacita profissionais de T&D, RH e gestores para demonstrar o impacto do treinamento com critérios ligados ao negócio. Conheça o Curso de Avaliação de Resultados de Treinamento →
Perguntas frequentes sobre aplicação do aprendizado após o treinamento
O que é aplicação do aprendizado após o treinamento?
É o momento em que o participante usa, na rotina de trabalho, o que viu na turma. Não se resume a ter participado nem a ter gostado do treinamento. Depende de espaço na agenda, de uma situação real para praticar e de um gestor que acompanhe o que foi tentado.
Por que o participante não aplica o que aprendeu no treinamento?
Na maioria dos casos, não é falta de interesse. O participante volta para a mesma agenda e para uma equipe que não mudou junto com ele, e a primeira tentativa custa mais tempo do que o hábito antigo. Também pode haver um obstáculo fora da equipe, como um processo, uma ferramenta ou uma regra da área que não permite a nova prática.
Qual é o papel do gestor na aplicação do aprendizado?
O gestor controla a agenda do participante, a reação ao primeiro erro e o retorno sobre o que foi tentado. Combinar uma situação real para aplicar, marcar uma data para conversar sobre o resultado e tornar a mudança visível para a equipe são ações que dependem dele.
Como o RH pode acompanhar se o treinamento chegou ao trabalho?
O RH pode alinhar a expectativa com o gestor antes da turma e retomar a conversa depois, perguntando o que ele observou. No modelo de Kirkpatrick, que avalia o treinamento em quatro níveis (reação, aprendizado, comportamento e resultados), a aplicação no trabalho aparece no terceiro nível, o comportamento. Para observá-lo, o gestor direto é a principal fonte.
O certificado comprova que o aprendizado foi aplicado?
Não. O certificado registra a presença na turma, não a prática no trabalho. Para saber se o aprendizado foi aplicado, é preciso observar o comportamento do participante nas semanas seguintes. A CR BASSO atua há mais de 30 anos em educação corporativa e oferece o Curso de Avaliação de Resultados de Treinamento para quem precisa demonstrar o impacto das ações de T&D.